
Senti dúvida em alguns desvios
Subi e desci com cansaço de exploradora,
Quando avistei o pico ao longe, fiquei radiante



O mundo te diz:
"dê mais".
Você discorda.
Diz que é demais.
Só que o mais é um sinal
E o mundo é americanizado.
"See now!"
Não demore.
"Dê more!".
Essa vida cansa,
Não há tempo de rede.
"Re-dê!"
Tem horas que enjoa.
Digo: não há tempo!
Eles dizem: "tem pô!"
E eu canso.
Maldito vocabulário!
Procuro um time
Mas não há time.
Eu vou, mas tenho sono.
"Só, no!"
Tem muita coisa,
É coisa demais.
E continuo só ouvindo:
"Dê mais!"
Se vou pro sul,
Algo me balança.
Mas escuto:
"Bá, lança!"
Se vou pro norte
tirar algo que me aveche.
"Ave, enche!"
Tudo é sempre na ação.
Nunca numa nice,
Tudo é pequenice!
Chega de demais!
Não sou de safadeza,
Mas quero corpo mole.
E vou alcançar, chega de ao cansar
que meu corpo já cansa.
Depois desta fadiga toda,
É boa hora pro bora da bonança.


Abolição
Não quero renunciar à vida
para me entregar à poesia.
Nem tampouco me oferecer em sacrifício
para enaltecer a história humana.
Quero ser brisa solta a vagar no dia.
Quero ser fraca, cansada e mundana.
Cheia de vontade de errar o ofício
e vazia de crítica pelo profano.
Quero que nada saia como os planos,
desejo nunca entender o caminho.
Prefiro ser burra a ser hipócrita.
Faço piruetas de salto, enalteço a chacota.
Não me importo em largar a rosa
e abraçar o espinho.
Eu sou um caminho torto, duma via florida.
Renego o cômodo e cambaleio formosa.
Escolho mesmo não entender nada,
não saber se fiz mal ou correto.
Deliberadamente rezo pelo azar
e torço para o meu andar não ser reto.
Quero errar tanto que esgotada peça arrego.
E mesmo assim não obtenha, e siga.
Desejo tudo que perturbe o sossego,
dou parabéns a tudo de bom que renego.
Não me irrito com as críticas,
não pergunto a opinião alheia.
Desta vida toda, só quero ser cheia.
Autêntica, espontânea, se assim o quiser.
Quero ser hoje homem, amanhã mulher.
E não ter definição em cifras e nomes.
Quero só desse mundo ter fome.
Seguir perdida, com a impressão errada.
Nunca desejar desejar nada.
Se o tempo parar, e a escada cair,
eu quero apenas sentir
e não ter medo do podre.
Quero ser o quanto mais pobre
e o quanto mais louco
essas asas mancas de pombo
me deixarem ser.
E, um dia, quando a morte bater na minha casa,
eu dou um chute na cara dela.
Rio debochada, cuspo da janela.
E vou carregada pelos pés, como
uma foliã exagerada expulsa da festa.
Mas o meu público jamais esquecerá a algazarra.
E, no céu, continuarei bagunçando as arestas.
Me segurou um pouco manco,
Ode ao meu pé!
Meu pé
daqui desse ângulo
parece tão velho
Alguns calos,
poerias do chão
Meu pé que tanto me deu a mão,
aguentou tanto peso, tanto fardo
de me sustentar calado.
Aguentou meus surtos de dança,
fingindo ser pé de criança.
me mantendo de pé aos prantos.quando faço ele parecer alto ou fino.
Meu pé
Ele tem linhas da vida,
tem traços de castigo, de fadiga,
mas tem um charme curvo e bailarino.
Ele grita quando o impeço de ver o mundo,quando fico sentado, descrente.
Meu pé gosta de ser assim como é:
meio desleichado, sem salto
Meu pé implica com cada sapato
e canta quando aponta pro céu
Meu pé bate no chão impacienteme estimula a alcançar, sem bronca.
Meu pé é o teste pra ver se está frio ou quente
Ele se esforça pondo força só na ponta,se afasta de quem mira uma unha sua.
Meu pé se esquiva dos pisões da rua,
Meu pé fareja briga, e chuta
quem não compra minha lutaE me acompanha pelas minhas pegadas
No fundo, sou só eu, meu pé, e a vontade
Eu e meu pé companheiro
fazemos acordos
Eu deixo ele descansar,
mas muito parado me formiga teimoso
Meu amigo pé é ligeiro, tinhoso,
mas sabe bem o que quer.
