domingo, 3 de janeiro de 2010

Explora dor


Eu não sei se essa trilha chega ao monte
Sigo pegadas leves, de quem passeou por aqui como pluma
Avisto no horizonte distante o destino desejado
Havia mil chances de caminho e optei por seguir só uma

Senti dúvida em alguns desvios
e te encontrei perdida numa encruzilhada.
Procurei a bússola em mim, não sabia que era uma granada
Sem querer, explodi minhas certezas em um segundo
E acabei por ver que o norte está solto no mundo

Subi e desci com cansaço de exploradora,
mas na maratona me abaixei, no meu ombro de vencedora
Colhi algumas flores do campo e uma pequena tigela
Nela depositei minha guerra e um pedaço de espírito
Senti que essa porção iria sempre comigo
e tive força para dar mais passos adiante

Quando avistei o pico ao longe, fiquei radiante
Mas não porque estava próxima a chegada
É que percebi que não me faltava mais nada
a não ser a vontade de caminhar errante
Não importa se por um século ou por um instante

Andei alguns novos quilômetros, meio cambaleante,
e numa pedra bonita me deixei cair repousante
Bebi a minha ânsia numa fonte profunda e bela
e escapei de um morteiro agressivo,
com alguns arranhões, mas sem grande sequela

Quando finalmente atingi o topo do mundo,
escorrei num pedaço de côco fresco e caí num vale profundo
Só que me deixando cair esbarrei num lago secreto
e percebi mais uma vez que o caminho para o alto é disperso

Sem abatimento ou fraqueza que me impeça,
continuo agora caminhando graciosa, sem pressa
Vou subir de novo uma montanha ou me lançar a um precipício,
mas o importante é que descobri
que não importa o caminho ou as escolhas:
eu sempre resisto.


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Parque

Enfadado com o tédio da rotina,
linda e misteriosa, promessa de menina,
chega para balançar o esqueleto.
Se não é para mim, eu invento.
Passa de fria a quente, de quente a fria,
e os dias começam a ter algum movimento.

Só que com o caminhar do tempo,
é inevitável que o novo vá ao cotidiano
e eu perco tudo o que criei de puritano
para de repente achar que o problema é meu:
dizer que viveu um amor que nunca viveu.

Todo o furacão literário
de repente passa a acordo funerário.
Quem foi que inventou essa conversa?
Essa menina comum não me interessa!
Corro em busca de um brinquedo novo.

O desafio é que toda boneca por dentro é oca
E se me aburreço com a minha vida
é porque não aprendi a vivê-la toda.
Em cada sacudida nova me esqueço,
que fui eu que enjoei de mim, lá no começo.

sábado, 7 de março de 2009


Carta sobre a lua

Tão sozinha e tão cheia de gente
Plena e ausente
Brilha, mas é cheia de nada
Contempla oculta na noite estrelada
e rouba a luz dos outros, dependente

Tem fases cíclicas e todas são belas
Quando se enche de sol, fica amarela
E quando se apaga deixa saudade.
Não se sabe qual a sua real idade,
ela esconde os mistérios profundos.
Iumina sabe-se lá quantos mundos
e inspira morimbundos bem almados.

É calada, traiçoeira e perigosa,
mas sabe ser velha amiga,
mesmo quando é nova.
Tenta ser gente grande
enquanto fica cada vez mais minguante.
Pode ser uma lanterna boa
para os perdidos na estrada.

É consolo para os fugidos,
recanto egoísta para as namoradas.
Ela sabe ser o espelho de quem é
Sedenta, caprichosa e crua...

Será que escrevo sobre mim
ou falo mesmo para a Lua?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Palavras



O mundo te diz:
"dê mais".
Você discorda.
Diz que é demais.
Só que o mais é um sinal
E o mundo é americanizado.
"See now!"
Não demore.
"Dê more!".

Essa vida cansa,
Não há tempo de rede.
"Re-dê!"
Tem horas que enjoa.
Digo: não há tempo!
Eles dizem: "tem pô!"

E eu canso.
Maldito vocabulário!
Procuro um time
Mas não há time.

Eu vou, mas tenho sono.
"Só, no!"

Tem muita coisa,
É coisa demais.
E continuo só ouvindo:
"Dê mais!"

Se vou pro sul,
Algo me balança.
Mas escuto:
"Bá, lança!"

Se vou pro norte
tirar algo que me aveche.
"Ave, enche!"

Tudo é sempre na ação.
Nunca numa nice,
Tudo é pequenice!
Chega de demais!

Não sou de safadeza,
Mas quero corpo mole.
E vou alcançar, chega de ao cansar
que meu corpo já cansa.

Depois desta fadiga toda,
É boa hora pro bora da bonança.



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009



Abolição

Não quero renunciar à vida
para me entregar à poesia.
Nem tampouco me oferecer em sacrifício
para enaltecer a história humana.
Quero ser brisa solta a vagar no dia.
Quero ser fraca, cansada e mundana.
Cheia de vontade de errar o ofício
e vazia de crítica pelo profano.

Quero que nada saia como os planos,
desejo nunca entender o caminho.
Prefiro ser burra a ser hipócrita.
Faço piruetas de salto, enalteço a chacota.

Não me importo em largar a rosa
e abraçar o espinho.
Eu sou um caminho torto, duma via florida.
Renego o cômodo e cambaleio formosa.

Escolho mesmo não entender nada,
não saber se fiz mal ou correto.
Deliberadamente rezo pelo azar
e torço para o meu andar não ser reto.

Quero errar tanto que esgotada peça arrego.
E mesmo assim não obtenha, e siga.
Desejo tudo que perturbe o sossego,
dou parabéns a tudo de bom que renego.

Não me irrito com as críticas,
não pergunto a opinião alheia.
Desta vida toda, só quero ser cheia.
Autêntica, espontânea, se assim o quiser.
Quero ser hoje homem, amanhã mulher.
E não ter definição em cifras e nomes.
Quero só desse mundo ter fome.
Seguir perdida, com a impressão errada.
Nunca desejar desejar nada.

Se o tempo parar, e a escada cair,
eu quero apenas sentir
e não ter medo do podre.
Quero ser o quanto mais pobre
e o quanto mais louco
essas asas mancas de pombo
me deixarem ser.

E, um dia, quando a morte bater na minha casa,
eu dou um chute na cara dela.
Rio debochada, cuspo da janela.
E vou carregada pelos pés, como
uma foliã exagerada expulsa da festa.

Mas o meu público jamais esquecerá a algazarra.
E, no céu, continuarei bagunçando as arestas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008




Ode ao meu pé!

Meu
pé
daqui desse ângulo
parece tão velho
Alguns calos,
poerias do chão
Meu pé que tanto me deu a mão,
aguentou tanto peso, tanto fardo
de me sustentar calado.
Aguentou meus surtos de dança,
fingindo ser pé de criança.
Me segurou um pouco manco,
me mantendo de pé aos prantos.

Meu pé
Ele tem linhas da vida,
tem traços de castigo, de fadiga,
mas tem um charme curvo e bailarino.
Ele grita quando o impeço de ver o mundo,
quando faço ele parecer alto ou fino.

Meu pé gosta de ser assim como é:
meio desleichado, sem salto
Meu pé implica com cada sapato
e canta quando aponta pro céu
Meu pé bate no chão impaciente
quando fico sentado, descrente.

Meu pé é o teste pra ver se está frio ou quente
Ele se esforça pondo força só na ponta,
me estimula a alcançar, sem bronca.

Meu pé se esquiva dos pisões da rua,
se afasta de quem mira uma unha sua.
Meu pé fareja briga, e chuta
quem não compra minha luta
E me acompanha pelas minhas pegadas
No fundo, sou só eu, meu pé, e a vontade

Eu e meu pé companheiro
fazemos acordos
Eu deixo ele descansar,
mas muito parado me formiga teimoso
Meu amigo pé é ligeiro, tinhoso,
mas sabe bem o que quer.
Viu todas as minhas andanças,
relevou toda farpa sem arredar pé.

Tem que ser muito chinelo velho
pra caber nesse pé cansado.
É velho, caprichoso e suado,
mas é só meu e não se contenta com qualquer sola.
Tem que ter muito conforto e luxo
pra esse pé se torcer pra dar bola.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Diferente



Se você é verde
mas o mundo é azul.
Se você é escuro
em tantos faróis de mentira.
Não se agite, não corra... se atira!
Você é a força nesta masmorra.
Parabéns, você acordou!

Segura a sua cruz
e chuta ela pra Vênus!
Você não é Jesus,
mas tem um veneno
que enche o planeta
de saudável pimenta!
Você esquenta!

Obrigada por nascer estranho,
sou grata por se achar E.T.
O importante é que você se vê
e isso abre uma lente no humano.
É mais que enconder falhas,
prender a consciência em panos.

Seu passo é mais lento,
mas isso faz você ver mais.
Que bom que é capaz
de enxergar além do trotar comum.
Você não é mais um.
Que alegria, irmão!

Não pense em morrer,
não deseje a prisão.
Solta esse seu coração!
Não rói o osso,
joga sal nesse cantar insosso!

Queria estar contigo esta noite,
estou aqui no clã dos loucos.
Não se deixe rouco.
Você pode mais, e voa!
Que lindo te ver assim à toa.
Você é a minha esperança! Dança!