quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009



Abolição

Não quero renunciar à vida
para me entregar à poesia.
Nem tampouco me oferecer em sacrifício
para enaltecer a história humana.
Quero ser brisa solta a vagar no dia.
Quero ser fraca, cansada e mundana.
Cheia de vontade de errar o ofício
e vazia de crítica pelo profano.

Quero que nada saia como os planos,
desejo nunca entender o caminho.
Prefiro ser burra a ser hipócrita.
Faço piruetas de salto, enalteço a chacota.

Não me importo em largar a rosa
e abraçar o espinho.
Eu sou um caminho torto, duma via florida.
Renego o cômodo e cambaleio formosa.

Escolho mesmo não entender nada,
não saber se fiz mal ou correto.
Deliberadamente rezo pelo azar
e torço para o meu andar não ser reto.

Quero errar tanto que esgotada peça arrego.
E mesmo assim não obtenha, e siga.
Desejo tudo que perturbe o sossego,
dou parabéns a tudo de bom que renego.

Não me irrito com as críticas,
não pergunto a opinião alheia.
Desta vida toda, só quero ser cheia.
Autêntica, espontânea, se assim o quiser.
Quero ser hoje homem, amanhã mulher.
E não ter definição em cifras e nomes.
Quero só desse mundo ter fome.
Seguir perdida, com a impressão errada.
Nunca desejar desejar nada.

Se o tempo parar, e a escada cair,
eu quero apenas sentir
e não ter medo do podre.
Quero ser o quanto mais pobre
e o quanto mais louco
essas asas mancas de pombo
me deixarem ser.

E, um dia, quando a morte bater na minha casa,
eu dou um chute na cara dela.
Rio debochada, cuspo da janela.
E vou carregada pelos pés, como
uma foliã exagerada expulsa da festa.

Mas o meu público jamais esquecerá a algazarra.
E, no céu, continuarei bagunçando as arestas.

3 comentários:

Bru disse...

Cada texto é uma viagem enorme. Interna ou externa, é sempre uma viagem. E é sensacional (, mané), poder fazer parte dela.

Grande beijo. Adoro você.

Mário Cesar Filho disse...

gosto de poemas avassaladores como esse. Totalmente libertador, espontaneo, plural... ainda mais quando nos enxergamos nele! Já se tornou um dos meus prediletos, com certeza! Beijo grande! te amo!

Diogo disse...

Essa vida que atribula e nos faz, cada vez mais, escrever, seja para abdicar, exaltar, felicitar, protestar, relaxar, extravasar etc. Isso é bom embora não saibamos onde isso vai dar. E quer saber? Isso é melhor ainda. "Adoro-te-ler", menina.
Beijo