domingo, 20 de março de 2016

Questão de foco

Ele tinha cada olho prum lado
eu perguntava: "mamãe, como pode?
Ele não vai enxergar a frente,
vai tomar um tombo forte!"

Minha mãe, sempre certeira, me explicou
 de um jeito que não esqueci.
Ela disse "meu filho, o problema não é tombo,
o problema é nunca olhar pra si".

Mais tarde, na escola, apareceu ele de novo,
me viu de lado e soltou um riso, 
porque eu estava com o sorriso manchado.

Falei pra ele "cuidado, menino, acerta o olhar,
desse jeito você só vê o outro!"
E emprestei pra ele um espelho
para ele limpar seu dente pintado.

Quando cheguei em casa de novo,
fui guardar meu espelho quebrado.
De relance me vi sem querer um instante:
era eu que estava com os olhos pro lado!


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Despedida

De tudo que foi
e de repente não mais
o alívio se confunde, 
a cada instante,
com a falta que faz

Aquela confusão incessante
que fazia o coração bater junto
sai de cena deixando o vazio
da paz, o fim de um conjunto

Tanto já não se queria
ter o antigo caminho
que hoje tal como podia
virar um ser tão sozinho?

E volta ao lugar de origem
mas as roupas não lhe caem
A nudez também não serve
sem armários, portas que abrem

Tudo tão transitório
provoca estranheza tamanha
que perguntar ainda cabe
como proceder tal façanha?

E a saudade do que acabou,
a vontade do que ainda não chega,
a melancolia pelo que nunca passou
e por ter se habituado à tristeza

Dá uma força medonha
de retroceder na luta vencida
mas tem uma fé sem vergonha
que insiste em acreditar na vida

domingo, 20 de abril de 2014

Eterno

Muito passa, outros não,
o tempo todo um redemoinho.
Há quem fique e vá,
nada é permanente.
A não ser ele,
apagado ou reluzente,
no fundo do meu quarto.

As escolhas acusam,
cobram, perdoam.
Os caminhos brotam,
ou se esvaem.
Há muito o que fazer,
querer e esperar
e ele fica sempre lá.
Ele quer dizer alguma coisa.
E diz. Lamenta, conforta.
Dá seu carinho constante
sem pedir muito.
Sozinho, atrás da porta.

E nos momentos em que todos decepcionam
e tudo parece tão duro,
ele ressurge, um porto seguro.
Meu rosto, naquele velho espelho quebrado,
está sempre ao meu lado.
Moleque, tentando ser quem não é,
mas é sempre essa imagem
da luta de ontem, do que não vivi,
Ele sorri, meu eu, sempre profundo,
do meu ilusório e secreto mundo.

Pode tudo não ir ou nada ficar,
meu rosto sempre vai me abraçar.
Em tudo, em nada,
nessa hora perdida ou marcada.
O espelho da permanência eterna da estrada.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Por aqui ou por ali

Direita, esquerda,
quer com açúcar ou adoçante?
É atlética ou autêntica?
Intensa ou perseverante?

Vamos de drama ou comédia?
Mais discreta ou com extravagância?
Quer fazer planos a longo prazo?
Não prefere seguir conforme a dança?!

Casar virgem ou ter histórias?
Independente ou apegada?
Vida social ou introvertida?
Uma conversa solta ou programada?

Perdida, sem a mínima ideia,
atraída entre polos, sempre discrepantes,
segue cada dia mais incoerente,
nunca fica, é itinerante.

Entre as opções para a tarde,
mais do que tudo, é preciso escolher
entre ser ela mesmo
ou o que lhe dizem para ser.

Tão difícil parece seguir um só caminho,
por que não ser tudo e se sentir vazio?
Num universo de tantas possibilidades,
é injusto não ter várias mocidades.

Enquanto desvia, sem prumo e certeza,
parece não se saciar com nada
tendo tudo sobre a mesa.
E com tantas cobranças, tantas perguntas,
o caderno fica aberto em branco
sem uma biografia profunda.

Tirada da vida, tão perto dela,
se perde em pensamentos,
mas não se afoga nela.
Por ali ou por aqui, pergunta,
sentada naquela mesma pedra.

Tudo bem, apenas uma decisão é justa:
se entrega à reflexão e se apronta.
Pensa que quando está mais perdida
é justamente quando mais se encontra.

Exclui tudo, apaga e fica só com a essência.
Sem perguntas ou ideias, na permanência.
Às vezes o mais simples é o mais direito
e a vontade de ser é o que se é no peito.

A resposta para tudo isso

é a coragem de olhar o espelho.

domingo, 9 de junho de 2013

Convite

Um sopro de vida me pegou,
assim mesmo, igual uma brisa
no fim da tarde.
Me sacudiu como que num assalto
e me roubou do marasmo.

Um ventinho meio quente, meio gelado
arrepiou meus sentidos por um minuto
De repente me conectei com o mundo
e percebi como andava parada.

 Foi meio moleque, tipo num susto.
Me despertou do sono do trabalhador cansado
e me levou para um outro diálogo.
Fora das portas dos restaurantes,
das janelas do apartamento,
eu comecei a conversar com o vento.

 E ele me disse: o, Cristine, por que esta tão distante?
Só essa pergunta já me deixou radiante!
O vento sabe meu nome, o universo me chama,
Por que perco tempo abobalhada na cama?

Bora, Cristine, que esse vento é passageiro:
ou ele te carrega e revoluciona o conformismo,
ou ele te abandona sozinha no bueiro.

Vamo, garota, que pisca o olho e vira velha.
Sem ter mais vento que te empurre ou chame,
apenas a antiga e estática janela.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Inveja

Comprei um lindo jardim colorido, mas o dela tinha mais orquídeas. Roubei o rabo de um gato para viver, mesmo assim ele tinha mais vidas Passei 12 dias correndo sobre o mar, e minhas pernas ainda eram finas. Tentei desejar ser alguém melhor mas não fui quem desejei um dia. Cega, vendada, a inveja chega a galope Não nota a linda semente que brota aos pés do cavalo em corrida. Incrédula, descrente e sempre esbaforida, não pressente a manhã que nasce, se concentra na noite perdida. Com os braços e pernas atados, tenta a inveja seguir um caminho. Mas nada é tão doce, tão limpo, como cobiçar o que é do vizinho. Afogada em desejos, nem nota os beijos de tão lindo cavalheiro ao seu lado. Ambiciosa ao extremo, não sente o alento do que conquistou com seus passos. Cruel e infeliz inveja, enterra os sonhos em menores farelos enquanto a realidade definha em momentos cada vez mais belos. Cobiça maldosa, deixa o dono sempre alheio. Reduz a nada seus esforços notáveis, turva e envelhecida a imagem no espelho. Espero, inveja, com a força da minha estima, que eu deseje apenas ser cada vez mais minha. Que o único modelo que me instigue seja ser eu mesma, até no pior deslize. Que não me trave, não me amarre, não me estreite, Só cobiço, inveja, que você me deixe!

sábado, 12 de janeiro de 2013

Garça

Ele olha com jeito de criança
sorri como beija, com ânsia
Me conduz com a mão e carinho,
sei que ele sabe o caminho.

Às vezes me sinto perdida,
seu olhar me acalma a procura.
Porque com ele não preciso de plano,
nem de horário certo, postura.

Ele sabe quem eu sou, me conhece, 
e com tudo isso me aquece,
me devora com sua vontade de vida.
Ele é a minha passagem só de ida
para uma estrada de luz e amor.

De tantas coisas duvido, 
até de mim, ou principalmente,
mas quando deito no seu peito sinto,
não preciso pensar, basta a gente.

Um companheiro para bater papo,
para dar risadas sem sentido, 
para pensar nos planos de domingo.

Meu poeta tipo pássaro, 
voa para dentro de mim e me ergue. 
Sobe no alto do peito e me mostra
com que força você consegue

me tirar da minha confusão interna
para um turbilhão de emoção sincera, 
que só tem uma certeza: 
ser sua, nessa e em qualquer primavera.