segunda-feira, 14 de abril de 2008

Falta de inspiração...


Vazio


Vazio. Meu coração está vazio.

Queria escrever um poema,

algo que celebrasse o que sinto,

algo que desabafasse o que sofro.

Mas vazio. Vazio é só o que ouço.


Queria gritar, mas não sei se grito.

Gritar por que, para quem?

Não há motivos. Nas minhas palavras

só o vazio. O vazio de todo sentido.


Queria pensar em algo brilhante,

algo que mudasse o mundo.

Ou ao menos minha face indiferente.

Mas vazio é o que comanda minha mente.


Queria agora, mas não sei se rio.

Rio ou desatino num oceano de sorrisos.

Entretanto o que resta do meu brilho?

Só o vazio. O vazio opaco do sem destino.


Então me cubro e imagino um precipício.

Um lugar onde eu possa jogar esse vazio.

Depois mergulhar minha alma num oceano,

um oceano bem cheio de amanhã.


No amanhã de quem tem todo tempo cheio.

Sem o vazio que não mais cobrirá meu peito.

domingo, 2 de março de 2008

Humano

Elementos do ar,
do mar ou da terra.
Elementos do arroz e do feijão,
da paz ou da guerra.
Elementos do fogo,
do terror de ter nascido.
Passageiros do tempo.
Inventores de inimigos.
Passageiros da lástima,
da lembrança de ter deixado.
Escravos do passado,
do futuro embaçado.
Estrangeiros no perigo,
no ardor de um novo mistério.
Esculturas distorcidas do que é belo.
Prisioneiros destemidos, e ridículos.
Advogados da razão.
Sem mão, sem jeito pra coisa.
Alegria melancólica
dos que se valem do não ser.
Tristonhos persistentes em não se ver,
enroscados nas mentes uns dos outros.
Pressa, muita pressa, pressa.
Bichanos perdidos.
Doentes dopados.
Alegres pedintes,
com medo do crucificado.
Pressa, muita pressa.
Vontade de ser, e morrer, e ficar, e não ir, e voltar.
Talento na hora de rir.
E sumir, se perder do horror de pensar.
Sedução da beleza da vida,
entoada com a vontade de roubar.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008


Para não dizerem que nunca posto poesias de amor, aí vai. Em breve, o devaneios vai se tornar livro. Aguardem mais notícias. Beijos!


Adiós Argentina

Adiós Brasil
Estou indo para a Argentina
Vou me afundar em tangos
Vou me perder na boemia
Adiós Brasil
Quero mais que belas praias
Quero alfajor no café do Palerma
Vou ver o Boca, vou sair de cena
Cansei da mesmice
Desta vida pequena
Mas não se engane, companheiro
Vou voar de coração triste
Minha mente amarrada
Com saudades desta vida mesma
Meu sorriso apertado
Da angústia de não estar plena
Espere que já logo volto
Maior, pelo tempo sozinha
E se pensa que fui para ser mais distante
se engana, fui para ser menos minha
Fui para ser livre tranqüila
E voltar com a verdade convicta
de que sou presa por escolha e ousadia
De que sou sua, para sempre,
e não da Argentina

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Mar e céu


Voltei.. acordei agora de noite pensando isso.. depois lendo vi que dialoga com outras poesias minhas.. beijos para os queridos visitantes!


Uma fábrica se construiu sozinha

com ferramentas de nuvens,

suspensa no ar

Havia funcionários de tantos nomes

Um me chamou a atenção

No fim de todo o trabalho

Luvas na mesa, rosto corado

Não havia mais cimento

Mas um som rompia esse homem

Era um tinitar contínuo no chão

Uma melodia fria e peculiar

A noite rasgava os horários

O silêncio dominava o abrigo

Mas esse som bem mais que o infinito

teimava em chamar a loucura

Era um ritmo de estranha tortura

Mas intrigante, supeito de se impor

O dia nas engrenagens acabara

E aquele ruído lembrava as tarefas

Na verdade era uma música sem trégua

Sem chance de sossego

Era um canto de rotina, um tom de medo

Era um verso de persistência

que lembrava a cadência de marchar

Mas aquele homem queria se libertar

Às vezes o ruído crescia,

como um dragão sem tamanho

Às vezes ficava minúsculo e risonho

e se transformava em goteira.

Mas o fato é que era um canto que não se dizimava

Pela vida inteira

Cada novo argumento que o fizesse acabar

Outro o fazia recomeçar

Tantos homens naquela fábrica não ouviam o som,

já tão acostumado.

Mas o operário tinha ouvido refinado

e quem se refina escuta além.

Blém, blém, blém, algo chamando, enquanto repelia

Era uma angústia de nunca acabar o dia

O homem ia além daquele ruído

Os sinos, os pássaros, os pianos

Nada abafava o canto tímido,

mas tão suave e cruel inimigo.

As máquinas, já cansadas,

queriam enfim parar.

Mas o martelo a martelar

O martelo a martelar

Talvez se não houvesse pinos,

não houvesse em que bater

Não, o martelo não batia em nada

O martelo só queria SER

O jogo interrompido no meio

A mesa posta, a moça pronta,

o martelo a martelar.

Tudo estranhamente no lugar

O operário não sabia se era ele

que se punha a trabalhar

Mesmo nos braços de um lindo sonho

o martelo a martelar

Queria ele desencantar esse feitiço musical medonho

e ir além das barreiras do som

O martelo pode ser forte, mas não é bom

Deve aprender a descansar

E cada pino voando na lua

e cada tino zombando do martelar

Fragmentos de ex-martelo na rua

Fim do eterno fixar

Um som de vidros se desfazendo em espuma

e o mundo perdido, e lindo,

sem ter o que martelar.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

regresso

Escrevi isso hoje, no aeroporto de novo, voltando de viagem.. Não sei pq aeroporto e ônibus são lugares inspiradores para mim... rs Beijos!

O regresso pra casa, nem sempre querida
Pedaço desarrumado de falsa guarida
Retorno para o quarto sem berço
Retomo a antiga rotina
Mas tem um pedaço que fica
Tem uma brecha, nunca completa
Uma fresta por onde a sede penetra
É uma vontade da não-residência, do não-vestígio
E no coração o desejo de se enlaçar
Mas meu sangue arisco não tem lugar

A sede faceira de deixar de querer
Teima em não se cansar
Quero um gesto cativante, quero me prender num lar
Quero um desmuro, um partido,
Uma rica bandeira
Mas não consigo escolher a legenda
Não sou desta terra, nem deste planeta
Eu sou uma breve estrela, perdida no escuro
Sou vela acesa, desencontrada da procissão

Ando contra os fiéis, crendo em algo sem nome
Sou risco na atmosfera, mas não tenho ar próprio
Sou energia fraca , tomo emprestadas as luzes do mundo
Não sou rasa, mas não tenho convicção de nada
Só sei que ando estranha, meu passo é atrasado
Mais na frente a boiada carrega a hora certa
E eu sigo pro abismo, não ligo
Não fujo porque não tenho rumo

domingo, 4 de novembro de 2007

Andar de hoje...

Foto by Cris. Poesia bem antiga, mas me senti assim hoje.. Beijos para todos que comentam e para os que não comentam tb.. aliás, beijos tb para os que nem visitam o blog e para os visitantes! rs

Simples

Ando pela rua
Vejo um pássaro
Tão passarinho
Penso na vida
Árvore da folha verde
Tão singela verdinha
Tiro meus óculos
Sento na terra
Piso na pedra
Só dureza, nova vida de dureza
Penso nessa pura destreza
Firme, forte, segura
Passa frio, passa chuva, passa fissura
E continua com sua força de apoio


Vejo o trigo de sol amarelo
Tão quentinho
E a moça dos olhos de névoa
Que sobrevoam essa selva
Que virou o mundo dos homens
Seguro com força o chão
Esse fixo que me dá proteção
Mas tão mais leve é flutuar
E voar por essa rua
Sentir cada simples perfume
Do mar, da brisa, da lua
Tão nua, também tão minha


Ah, se eu visse sempre esse mundo
com outros olhos!
Olhos de chama
Sem a areia, que embaça a clareza
de ver no simples
o sentido da maior grandeza
Para ver tudo mais claro
Não pode existir o bizarro
Só se pode aceitar que há
Essa engenhosa máquina
Perfeitamente perfeição
Andar pela rua de verdade
É sentir a trivial realidade
Andar marcando as pegadas
Seguir com a alma na mão
Sem medo de pisar em farpa
Cada poro do corpo expirando sensação


Esse andar foi meu hoje pela rua
Quem me dera fosse o andar diário
Do universo restrito
da minha complexa criatura