segunda-feira, 9 de julho de 2007


Esta foi uma das primeiras poesias que escrevi. Foi há alguns bons aninhos, mas ainda faz algum sentido

Escondo-me nas areias desertas
Meu refúgio sereno da solidão
Foi do medo do dragão do castelo
que me perdi no mar morto da confusão

Chamas
Tramas
Susto
Fuga

Corro de susto, de medo do bicho
Um monstro verde, enorme e comilão
Pra onde fugir, onde me esconder?
Onde fica o coração do dragão?

Prédios que se desmoronam
Guerras que enterram um milhão
Carros, bandidos, fantasmas
Nada é pior que o dragão

Morram três mil de esquerda
Caiam duzentos à minha direita
Fico tranqüila e nem vejo
Mas se me ponho a pensar no dragão
Xiiiiii já quase desmaio de medo

Estranho
Me zango
Não entendo
Me rendo!

Foi do medo desse dragão
Que tanto chorei, nunca o entendi
Não te encontro, ó dragão chefe do mundo
Que se decide realiza, só por existir!

Ai, dragão tão escuro!
Que tanto susto me deu
Ah, se desde o início eu já soubesse
Que esse enorme dragão... sou só eu.

domingo, 24 de junho de 2007


Em memória de uma época profissional infeliz


Moleca Executiva

Aqui, neste cubículo espremido de cidade,
Vejo minha criatividade
Reduzida a gotículas de poeira.
Essa enganosa luminosidade,
O encosto torto da cadeira.
Minha vida imprensada em grades,
Meu espetáculo estragando na geladeira.
As horas se arrastando inertes e amorais.
E de notícia do mundo,
Só a escravidão dos jornais.
Um fiasco de sentido passando pelo corpo.
O ar preso, quase um sufoco.
E o cheiro de papel frio, congelado.
O arrastar de cada momento suado
O isolado mundo ativo de cada um.
Uma rígida expressão contida,
Sedenta por um pouco de vulgaridade.
É o anseio diário por alguma novidade.
Moleca executiva, perdida,
Num escritório do centro da cidade.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Curtinha

Uma curtinha dessa madrugada


Passar de um estágio
sentada na ponte
Eu bebo um bocado,
me perco no limite
Sinto o bafo quente da certeza
Ouço as sirenes do medo
longe, perdidas,
indefesas contra o meu movimento.
Tento sem sucesso voltar a ser presa
Minha alma voou
Meu pesar é leveza
Gatilhos engatinham,
fazem graça do tormento
Eu sigo a direção do vento
Eu passo,
enquanto todos repassam
Eu vôo,
por cima de todos que avoam
Eu canto,
e todos mortos nos cantos
Menina velha
Sentada na vida
Eu sei onde há brisa
e fujo desses locais.
Meu tiro é o atirar
e o certo não me acerta.
E viva a reta do torto
e viva o toco da meta!

domingo, 3 de junho de 2007

Revolta


Sim, um pouco de revolta não faz mal a ninguém...


Moderna Idade

Viva a modernidade!
Viva a moderna, a falta de idade!
Viva a baderna e a mediocridade!
Passa ônibus, passa trem, pára-raio
Corre homem, pula mulher, pára-brisa
Cadê o sol? Roubaram o céu
Cata olho, procura mulher, cata-vento
De onde saiu tanto movimento?
Venho de dentro desse corredor ártico
Que andam chamando de mundo
Mundo deserto, árido, ácido
Beira a loucura, beira a histeria, Beira o Mar
E a quem se atribui poder julgar?
Modernidade... não há julgamento!
Todo mundo reto, enfileirado no tormento
Pecam tudo, pica juízo, pica a mula
Pecador tem verdade que é só sua
E deve pecar.. porque a verdade é técnica
É lapidada, demarcada, lápide verdade
Que se esconde na ciência do número
Onde vai se esconder o futuro?
Se ninguém parece que fica ou passa
Nosso destino virou uma grande farsa
A justiça fica só na Barsa, na garsa, na desgraça
Tampa a mente, tampa a boca, trampolim
Na roda gigante , a gangorra não tem vez!
Continuemos vivendo no talvez
E viva a modernidade! Não tema, não canse, não corra!
Unidos no canto do viva
Viva a modernidade...
Modernidade, morra!

domingo, 27 de maio de 2007

Gota


Esta poesia foi inspirada por uma goteira no telhado, mas fala principalmente da percepção do limite entre perseverança e teimosia


A Gota

O fim de um temporal
ou o fruto do orvalho.
Prenúncio de um dia quente
rolando num rosto suado.
O cheiro da comida gostosa
escorrendo da boca aflita.
Início de um drama doméstico
brotando insuspeita no telhado
A Gota, o fim, o que faltava.
O transbordar de uma emoção contida
no olhar doente e cansado
Ou a tremida no canto d´olho
da noiva feliz com o noivado.
O presente maldito do pombo
num dia amaldiçoado
A gota, o fim, o que faltava
O limite de um homem cansado
Uma bolha de proteção contra o medo
na ilusão da criança abandonada
A explosão do orgasmo feminino.
O fim do alívio da bexiga.
O líquido derramando do copo.
O cabelo molhado da moça.
A gota, o fim, o que faltava.
O varal, a torneira, a louça.
O limite, a gota d´água.

domingo, 20 de maio de 2007

Horizonte


Quero me reencontrar com este eu-lírico..
Sem Fim

Cada momento da vida
Prossigo por toda sempre dividida
O pior carrasco de mim sou eu mesma
A melhor lembrança que tenho minha
é pensar que não tenho fim

Sentada na praça, eu leio o jornal
De onde pode me atingir o mal?
Tudo de mim comando pelo pensamento
Força maior que rege todas as coisas
Se algo é meu, também é meu o poder de sua cura
Não há insuficiência que para sempre dura
E nem pano que algum dia não enxugue


Não posso proibir que alguém me julgue
Mas o julgamento final eu sempre posso
Porque é meu, só meu, e não nosso
E meus princípios (embora perecíveis) eu sei de cor
Não há barbante que se amarre
Que eu mesma não possa desfazer o nó

Você pode me chamar de prepotente
A crítica é inofensiva, estou contente
Sublime virtude da vida vem de dentro
Não deixo de sucumbir ao sofrimento
Sem mais julgar o que é certo, eu me ajudo
Mas culpar o que sinto já não mais culpo


Não posso permitir que me escape a coragem
Não preciso de falsa camaradagem
Para me levantar, ajoelho no chão
Pode doer, posso me render à confissão
Mas não desisto de seguir viagem

A cabeça está sempre sob o ombro
E algum dia ela ressurge do escombro
E faz raiar o sol na lama do juízo que jazia
E faz nascer a relva esperança aonde tudo morria

O mundo gira apesar de meus conflitos
Em algum momento sempre me reconheço como um amigo
Amor maior eu sinto ainda por mim
Para sempre poder recomeçar
e sentir que em novos inícios não tenho fim

domingo, 13 de maio de 2007

Queridinha


Essa é uma poesia muito importante para mim.


Segura o Vento

Você anda por uma rua
Chega o vento, de repente
Você se abriga, espera ele passar
Agora, tenta segurar o vento
Tenta...
É impossível fazê-lo parar

Você pega a cola do sapateiro
Que tudo cola, tudo pode colar
Agora, tenta colar a sua alma
Que se despedaça sem pedaço
Impossível remendar

Você usa binóculos de vidro
Que prometem fazê-lo enxergar
Mas tenta observar o vácuo
Verá que é cego
Que se engana em muito
Sua máscara é de pele
Sua visão , nunca concêntrica
Sua vida é em muito egocêntrica
Tudo que tem é quebradiço
Seu corpo é quebradiço

Você se sente imortal
Acha que pode controlar a morte
Você acha que é forte
Mas tenta mudar o sentido de um rio
Tenta levantar a água com as mãos
Segura o vento
Desvia a sua direção
Impotência, subjugação

Você se desfaz
Na tentativa de virar fumaça
Mas a fumaça passa
Tenta ir à lua
A lua nunca é de graça
Quer desvendar o mistério da vida
Decifra primeiro a sua mente
Ou pelo menos tenta
Vai até o fundo do mistério
Se sentirá impotente

Acha que nada o atinge
Se sente frio, gelado
Mas chega perto da chama de um vulcão
e será queimado

Abre os braços diante da vida
Fecha os olhos
Não pergunta nada
Senta na areia, no lixo, na mata
Não importa
Eleva a sua alma

Segura seus tormentos
Isso sim você controla
Regula sua cobrança
Segue perdido convicto
Nessa eterna buscança
Que cansa

E sofre
Sofre porque tudo faz parte do desafio
O desafio de ser grande
Ou pequeno, tanto faz
Esse é o desafio:
descansar de só querer mais

Não segura o vento
Deixa ele passar em paz.