quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Ajusta as lentes!


Vamos falar sobre óculos!
Primeiro, vale destacar:
uso em função da miopia.
Amigos, ora, a miopia é mia.
E cada um tem a sua...
Mas miopia sem óculos
envolve todo mundo da rua.
Tem a dona Fiorina,
que vê tudo embaçado e comenta.
Tem o Carlão Bom de Mira,
que se vê com visão melhorada.
Eu sou aquela baixinha
que tropeça na mesa
e não entende nada
do que se mostra.
Eu sou uma miopia com certa bossa.
Mas, ainda assim, prefiro enxergar.
Por isso, voltamos ao tema:
decido usar óculos.
Mas sei que a miopia ainda está lá.
Então, volta e meia, deve-se mudar a lente
(neste dia a gente até fica contente)
e de repente nota que, de novo,
já está vendo tudo deformado...
(aí a gente compra um óculos menos quadrado).
Pois é, amigos, óculos dizem muito.
Dizem do que se sente
e do que se esconde
atrás de cada armação.
Diz daqueles graus a mais
que vêm com o tempo
e com o cansaço da observação.
E eu, mesmo enxergando poesia,
às vezes queria explodir a miopia
e ter a visão perfeita!
Mas aí tem um tal de
"não ser tão bom ver cada detalhe"...
E eu deixo essa mania na cabeceira
e volto a me dizer "ei, repare!"
Olho ceguetinho, vem em quando,
com óculos novo e bonito...
Até que tem um charme!

Feminismo

 A essa mulher de óculos

que todos os dias despeja
flores na mesa vazia.
Acredita no poder das palavras
(e da vida).
Tem um jeito de saborear
cada partilha
e faz de todas as suas
cores uma família.
Como é belo o jeito de persistir,
a coragem de se atirar
(mesmo que do mesmo lugar)
e a força que mostra no sorrir.
Sou sua sempre, a cada manhã,
renovo esse amor que nos resguarda.
Você é calor de vento e cheiro de terra molhada.
Estamos juntas a cada momento
e isso que sempre me salva.
A essa brisa-mulher-maravilha,
que bom te escutar, te sentir
e ser sempre a sua morada.
Só quero ouvir teu canto,
teu som, teu passo já desgastado.
Você acerta até quando erra
porque deixa em mim aprendizado.
É por você que me movo,
pelo seu olhar mais puro, a cada autorretrato.
Escrevo essa carta pra te dizer:
não importa quantas rugas e manchas
insistam em me ver,
a cada dia te sinto mais eu
e me deságuo mais em ser você!

Pandemia

 Maria ia à escola,

mas já não podia entrar.

"Quem me dera estudar..."
Pois que pena, não daria.
Carlito tinha fome
e partiu a mendigar,
mas, com medo do contato,
"Não tenho nada", teriam dito
ao pobre Carlito.
E o mundo parou de rodar.
Enquanto uns corriam
atrás de bolas que rolavam sós,
outros sucumbiam,
à espera de rever, um dia,
tantos de nós.
E aquela porta que se abria
se fechou em um muro
e se resumiu a a(pó)s.
O trabalho, uma lembrança boa,
da Clarice, do Pedro e do Ivo.
O avião partindo no vazio.
E no peito a flor teimosa da esperança
escoando murcha para o intestino.
A todos que disseram
 "veja o lado bom",
o meu lamento mais sincero:
só por hoje perdi o dom.
Quero apenas ver da janela
seus rostos daí cantando
e te dizer um tanto
do quanto me importo.
Estou aqui no meu canto:
Teremos um novo dia.
Só não sabemos quando.

Portas fechadas que abrem

Bati a porta. Não foi uma nem duas vezes: eu me derramei na campainha. Ouvi do outro lado ruídos silenciosos da indiferença. Fiz barulho ao me abrir, mas o som dessa porta era imenso. Me calei ali, abaixadinha. 


Tirei os sapatos e pensei em outra saída - ou entrada - nessa casa/vida que não queria me habitar. Só avistei os muros altos da solidão cercada, quis bater asas ou naufragar. Mas entendi a fechadura mais de perto: esse não é meu lar.

Peguei a mala que sonhei deixar ali. Arrumei meus pertences no vento, me deixei partir. E voei para outros momentos, tive vislumbres do que sonhei construir. E comecei, cimento a cimento, a entender meu casulo porvir.

Olhei o caminho para trás com saudade, mas o mundo à frente tem cores mais abertas. Entendi que não tem tanta pressa, e também não só uma saída. Encontrei naquela porta a descrença. Mas me fechei desse capítulo e abri a vida.

segunda-feira, 2 de março de 2020

À porta

Como, meu bem, queria
que você batesse à porta.
Imagino você à mesa,
sinto me cutucando as costas.
Mas você não está hoje,
nem amanhã.
O tempo é um vácuo sem esse olhar
que teima em manter cerrado.
A floresta é um deserto do seu abraço.
Eu sou você, ainda aqui resistindo.
Eu vejo você daí sorrindo.
Um dia ainda vou abrir essa porta,
os olhos, o sorriso,
e encontrar seu colo.
Meu pai.
Um dia seremos nós dois de novo
Enquanto isso, tenho as lembranças.
Viro e revivo. Choro.
Rodopiando nas memórias,
te encontro me dando a mão,
desde criança.
Nós somos uma festa linda,
preparada para durar toda a vida.
O seu banquete anda esfriando,
mas eu continuo dançando.
Um passo de cada vez.
Nós dois ainda, distantes.
Quem sabe ainda mais juntos.
Talvez.
E eternamente vibrantes.

Adeus?


Quando a gente se perdeu
era noite, chovia, 
ou era sol demais
nos nossos olhos.
O fato é que eu não te via,
nem mesmo nos sonhos.
A verdade é que ainda queria
mas não sabia mais como.

Quando a gente se perdeu
eu estendi a mão no escuro. 
Você também. Era um luto. 
Não havia mais certeza. 
Eu só via solidão, 
você só via indiferença.
A canção nunca encantou, 
nunca houve a mesma crença. 

Quando a gente se perdeu
eu era só uma criança. 
Ou talvez ainda não,
talvez seja coisa recente. 
Mas o fato é que a gente foi longe
mas é perto o que ainda se sente. 
A verdade é que foi culpa nossa
ou talvez nunca tenha sido. 
Não se sabe se fomos mesmo
mas é como se não tivéssemos ido. 

Quando a gente se perdeu
eu deixei um recado dizendo:
"Alô você, não se vá, 
eu ainda estou aqui". 
Deixei? Eu não me lembro...

Eu me manifesto com poesia, 
assim é que eu sei te contar,
que quando a gente se perdeu
eu ainda te queria lá. 

Um dia a gente vai se encontrar, 
espero que não mais tão longe. 
Esse dia pode ser hoje. 
Muito menos eu do que seu. 
Muito mais nosso do que posso. 
Nesse dia não haverá tanto breu, 
será só nosso "sim" 
e - quem sabe - um novo norte. 

Pai

Quando você partiu
eu me parti em cacos.
Fiquei em restos do que fui primeiro. 
Em minutos, me vi em pedaços.
Mas entendi sua frase no leito:
"Você foi muito bem". Não esqueço.
Eu me desintegrei, mas com respeito
pelo que você planejou pra mim no começo.

Para alguém morrer, é preciso nascimento.
O mundo mudou por inteiro,
então não posso mais ser o mesmo.
Do resto podre de tudo que era
vai brotar, de flor em flor, a primavera.
Você plantou em mim
uma floresta rica em recomeço.

"Quando tu foreis, me escrevas, pelo caminho.
Se não tiveres papel, nas asas de um passarinho".
Quis ir com você, não vi mais trilho.
De longe você me olhou de novo
e me fez, pra variar, um carinho.

Pai. Você foi. Mas sempre será.
Mil cartas vou te escrever
e, a cada uma, você vai me olhar.
Eu entendi quem eu sou, 
você fez bem em me ensinar.
"Boa noite",  você sussurrou. 
"Boa noite" prum novo dia raiar.

Nada será como antes.
E você, amante da evolução,
como sempre, no desespero,
me dará a mão. 
Juntos, vamos achar novo caminho.
Um jeito de sermos nós dois ainda,
de caminhar cruzado nesse andar sozinho.

Eu vou honrar o teu nome,
tua confiança, teu braço dado.
Eu não deixar de resistir,
com força trêmula defender teu legado.
Eu sou mais forte a cada dia,
por você, por mim, pela nossa poesia.
Eu resisto. Eu sou carne, fogo, menina,
filha, mãe, passarinho.
Um dia eu vou ser também essa carta num quadrinho.
Um dia, nós dois de outro jeito,
ainda nós, em outros destinos.
Um dia. De cada vez.
Sou fortaleza sua. Sou essa carta. Sou vazio.

Sou aquela cama que ficou desarrumada,
aquela porta e a ferida ainda abertas.
O cadarço desamarrado,
o pedaço de uma tentativa incerta.

Mas sou também o sorriso que me deu
a cada vez que me viu chegar.
E sou aquele jeito só seu de me amar.
Sou a verdade que existiu em cada abraço.
Sou uma parte enorme sua, em cada passo.

Não adianta me apegar ao incerto,
então eu me apego ao que ficou
de você em mim.
Eu me apego ao que é belo.
Para algo nascer, é preciso morrer.
Então eu me deságuo em mim.

Nosso renascer será eterno.