segunda-feira, 2 de março de 2020

À porta

Como, meu bem, queria
que você batesse à porta.
Imagino você à mesa,
sinto me cutucando as costas.
Mas você não está hoje,
nem amanhã.
O tempo é um vácuo sem esse olhar
que teima em manter cerrado.
A floresta é um deserto do seu abraço.
Eu sou você, ainda aqui resistindo.
Eu vejo você daí sorrindo.
Um dia ainda vou abrir essa porta,
os olhos, o sorriso,
e encontrar seu colo.
Meu pai.
Um dia seremos nós dois de novo
Enquanto isso, tenho as lembranças.
Viro e revivo. Choro.
Rodopiando nas memórias,
te encontro me dando a mão,
desde criança.
Nós somos uma festa linda,
preparada para durar toda a vida.
O seu banquete anda esfriando,
mas eu continuo dançando.
Um passo de cada vez.
Nós dois ainda, distantes.
Quem sabe ainda mais juntos.
Talvez.
E eternamente vibrantes.

Adeus?


Quando a gente se perdeu
era noite, chovia, 
ou era sol demais
nos nossos olhos.
O fato é que eu não te via,
nem mesmo nos sonhos.
A verdade é que ainda queria
mas não sabia mais como.

Quando a gente se perdeu
eu estendi a mão no escuro. 
Você também. Era um luto. 
Não havia mais certeza. 
Eu só via solidão, 
você só via indiferença.
A canção nunca encantou, 
nunca houve a mesma crença. 

Quando a gente se perdeu
eu era só uma criança. 
Ou talvez ainda não,
talvez seja coisa recente. 
Mas o fato é que a gente foi longe
mas é perto o que ainda se sente. 
A verdade é que foi culpa nossa
ou talvez nunca tenha sido. 
Não se sabe se fomos mesmo
mas é como se não tivéssemos ido. 

Quando a gente se perdeu
eu deixei um recado dizendo:
"Alô você, não se vá, 
eu ainda estou aqui". 
Deixei? Eu não me lembro...

Eu me manifesto com poesia, 
assim é que eu sei te contar,
que quando a gente se perdeu
eu ainda te queria lá. 

Um dia a gente vai se encontrar, 
espero que não mais tão longe. 
Esse dia pode ser hoje. 
Muito menos eu do que seu. 
Muito mais nosso do que posso. 
Nesse dia não haverá tanto breu, 
será só nosso "sim" 
e - quem sabe - um novo norte. 

Pai

Quando você partiu
eu me parti em cacos.
Fiquei em restos do que fui primeiro. 
Em minutos, me vi em pedaços.
Mas entendi sua frase no leito:
"Você foi muito bem". Não esqueço.
Eu me desintegrei, mas com respeito
pelo que você planejou pra mim no começo.

Para alguém morrer, é preciso nascimento.
O mundo mudou por inteiro,
então não posso mais ser o mesmo.
Do resto podre de tudo que era
vai brotar, de flor em flor, a primavera.
Você plantou em mim
uma floresta rica em recomeço.

"Quando tu foreis, me escrevas, pelo caminho.
Se não tiveres papel, nas asas de um passarinho".
Quis ir com você, não vi mais trilho.
De longe você me olhou de novo
e me fez, pra variar, um carinho.

Pai. Você foi. Mas sempre será.
Mil cartas vou te escrever
e, a cada uma, você vai me olhar.
Eu entendi quem eu sou, 
você fez bem em me ensinar.
"Boa noite",  você sussurrou. 
"Boa noite" prum novo dia raiar.

Nada será como antes.
E você, amante da evolução,
como sempre, no desespero,
me dará a mão. 
Juntos, vamos achar novo caminho.
Um jeito de sermos nós dois ainda,
de caminhar cruzado nesse andar sozinho.

Eu vou honrar o teu nome,
tua confiança, teu braço dado.
Eu não deixar de resistir,
com força trêmula defender teu legado.
Eu sou mais forte a cada dia,
por você, por mim, pela nossa poesia.
Eu resisto. Eu sou carne, fogo, menina,
filha, mãe, passarinho.
Um dia eu vou ser também essa carta num quadrinho.
Um dia, nós dois de outro jeito,
ainda nós, em outros destinos.
Um dia. De cada vez.
Sou fortaleza sua. Sou essa carta. Sou vazio.

Sou aquela cama que ficou desarrumada,
aquela porta e a ferida ainda abertas.
O cadarço desamarrado,
o pedaço de uma tentativa incerta.

Mas sou também o sorriso que me deu
a cada vez que me viu chegar.
E sou aquele jeito só seu de me amar.
Sou a verdade que existiu em cada abraço.
Sou uma parte enorme sua, em cada passo.

Não adianta me apegar ao incerto,
então eu me apego ao que ficou
de você em mim.
Eu me apego ao que é belo.
Para algo nascer, é preciso morrer.
Então eu me deságuo em mim.

Nosso renascer será eterno.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Deboche

"Se não há sentido, pra quê o acordar?
Pra quê o se vestir, o ressentir, o lamentar?
Por que nos abafamos, no aperto do dia a dia, se tudo é só monotonia e não há o que querer?
Não, meu amigo, beba mais um copo...
Sente sobre o seu corpo e veja como está pesado.
Deixa um pouco a raiva de lado,
que é ela o que pesa mais.
Esqueça todo esse desconforto no banco de trás,
enquanto, confuso, respira ofegante na janela.
Pois é só arder-se nela que justifica a vida nessa hora.
É abraçar a angústia, e depois jogá-la toda fora.
Um respiro, um lamento, e mais uma etapa vai cumprida.
Isso sim é viver a vida: questionar e dançar.
Perder e se desfazer também da derrota.
Ser qualquer boçal perdido nessa palhoça,
mas pelo menos ter bossa,
que sem ela nem você se aguenta.
Cair de quatro no chão, mas mantendo o suingue.
Só assim a chacota não lhe atinge...
Lançar-se de boca no fundo do poço
pra ver se pelo menos descola um biscoito.
E tirar um pouco a importância de tudo.
Isso de agora já foi no futuro.
É por isso que não adianta prever.
É só questão de se manter e dar uma risada.
Pode crer que, sem sentir, um dia essa porra toda acaba.

domingo, 20 de março de 2016

Questão de foco

Ele tinha cada olho prum lado
eu perguntava: "mamãe, como pode?
Ele não vai enxergar a frente,
vai tomar um tombo forte!"

Minha mãe, sempre certeira, me explicou
 de um jeito que não esqueci.
Ela disse "meu filho, o problema não é tombo,
o problema é nunca olhar pra si".

Mais tarde, na escola, apareceu ele de novo,
me viu de lado e soltou um riso, 
porque eu estava com o sorriso manchado.

Falei pra ele "cuidado, menino, acerta o olhar,
desse jeito você só vê o outro!"
E emprestei pra ele um espelho
para ele limpar seu dente pintado.

Quando cheguei em casa de novo,
fui guardar meu espelho quebrado.
De relance me vi sem querer um instante:
era eu que estava com os olhos pro lado!


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Despedida

De tudo que foi
e de repente não mais
o alívio se confunde, 
a cada instante,
com a falta que faz

Aquela confusão incessante
que fazia o coração bater junto
sai de cena deixando o vazio
da paz, o fim de um conjunto

Tanto já não se queria
ter o antigo caminho
que hoje tal como podia
virar um ser tão sozinho?

E volta ao lugar de origem
mas as roupas não lhe caem
A nudez também não serve
sem armários, portas que abrem

Tudo tão transitório
provoca estranheza tamanha
que perguntar ainda cabe
como proceder tal façanha?

E a saudade do que acabou,
a vontade do que ainda não chega,
a melancolia pelo que nunca passou
e por ter se habituado à tristeza

Dá uma força medonha
de retroceder na luta vencida
mas tem uma fé sem vergonha
que insiste em acreditar na vida

domingo, 20 de abril de 2014

Eterno

Muito passa, outros não,
o tempo todo um redemoinho.
Há quem fique e vá,
nada é permanente.
A não ser ele,
apagado ou reluzente,
no fundo do meu quarto.

As escolhas acusam,
cobram, perdoam.
Os caminhos brotam,
ou se esvaem.
Há muito o que fazer,
querer e esperar
e ele fica sempre lá.
Ele quer dizer alguma coisa.
E diz. Lamenta, conforta.
Dá seu carinho constante
sem pedir muito.
Sozinho, atrás da porta.

E nos momentos em que todos decepcionam
e tudo parece tão duro,
ele ressurge, um porto seguro.
Meu rosto, naquele velho espelho quebrado,
está sempre ao meu lado.
Moleque, tentando ser quem não é,
mas é sempre essa imagem
da luta de ontem, do que não vivi,
Ele sorri, meu eu, sempre profundo,
do meu ilusório e secreto mundo.

Pode tudo não ir ou nada ficar,
meu rosto sempre vai me abraçar.
Em tudo, em nada,
nessa hora perdida ou marcada.
O espelho da permanência eterna da estrada.